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Débora Simas conta como foi correr 800 km em uma esteira

Com sua inseparável bandeira do Brasil, a catarinense buscou uma marca inédita para o país. Crédito: Eduardo Ducks/Divulgação

 

Correr sete dias seguidos numa esteira em busca de um nome no livro dos recordes. Você toparia de fazer? Agora imagina buscar essa marca dentro de um shopping com muita gente passando a sua volta indo fazer compras, refeições ou só passeando e de madrugada vendo um pessoal trabalhar na manutenção dele? Essas e outras histórias a ultramaratonista Débora Simas viveu na semana entre 14 e 21 de julho em Florianópolis se tornando a primeira brasileira a tentar buscar essa marca, mas que bateu na trave e acabou ficando com o recorde sul-americano no desafio ao percorrer 800,6 km.

Após completar seu desafio, essa última semana tem sido principalmente de recuperação para Deby, como é conhecida. Treinos? Ao menos só daqui há dois meses no mínimo. Também ainda não foi uma semana para retomar seu trabalho na lanchonete da academia aonde trabalha, algo que fará nos próximos dias. Mas em termos de resistência, ela está bem.

E como será que foi passar por essa semana mágica? O que será que faltou a ela para percorrer mais 33 kms e trazer o recorde para o Brasil? Teremos uma nova tentativa em breve? O Esportes de A à Z conversou com ela e você acompanha agora.

 

Esportes de A à Z:  Como foi correr dentro de um shopping? Como você notava a forma das pessoas comuns que estavam lá para passear, trabalhar e tal vendo você correr?

 

Débora: Foi muito legal! eu estava correndo desde fevereiro quando eu recebi a esteira em casa. Eu estava treinando dentro do meu quarto tendo que me virar com a minha alimentação, com a hidratação, suplementação, pensar nos meus intervalos e das idas ao banheiro. E lá no shopping para mim era uma festa porque eu não precisava pensar em nada! Eu tinha todo melhor todos meus amigos lá. Tinham as pessoas que eram juízes, coordenadores. Tinha os coordenadores da alimentação, então não precisava me preocupar em descer a da esteira para pegar nada e eles repondo tudo ali para mim. Tinha o pessoal que ia lá na torcida que ficavam assim abismada em ver eu parar a esteira diminuir a velocidade e me ver eu almoçando em cima da esteira. Era legal ver a cara de espanto das pessoas com essa cena e para mim então foi uma festa ficar lá no shopping com 120 pessoas na minha disposição diretamente ali em cima do palco a cada quatro horas trocavam essas pessoas então para mim foi o máximo assim. Eu estava muito feliz.

 

Esportes de A à Z: Quando foi na tentativa do Marcio Villar, ele ficou de frente a uma ótica e acabou decorando todos os preços do mostruário. Você tinha alguma loja em frente e passou por alguma experiência parecida?

 

Débora: A minha frente ali no shopping, eu tinha o primeiro andar que ele virava uma sacada. O pessoal ficava ali e eu conseguia interagir com esse pessoal dando tchau, levantando a minha bandeira do brasil ou se não a frente que o pessoal. Eu então eu ficava um pouco mais distante do público que ficava lá no outro lado. Mesmo assim eu consegui interagir com eles e eu ficava olhando nos primeiros dias eu até consegui olhar para trás interagir com as pessoas que estavam atrás de mim. Mas depois do segundo dia eu só conseguia visualizar as pessoas na minha frente e eu pedia pros coordenadores pra essas pessoas ficarem na minha frente porque à medida que eu estava olhando pra trás e virava muito pescoço, me desequilibrava da esteira e aí que começou a pegar o trapézio. Então foi onde decidimos que as pessoas sempre tinham que estar na minha frente para não fazer esse movimento de pescoço. Mesmo assim eu consegui interagir com todo mundo que estava ali na minha frente e essa é a minha distração.

 

Esportes de A à Z: Como foram as madrugadas, sem ninguém circulando pelos corredores do shopping?

 

Débora: Tem gente que acha que o shopping fecha as portas às dez horas da noite ou depois do cinema e não tem mais vida lá dentro. Não, é muito pelo contrário! Tem uma vida que pulsa lá dentro daquele lugar. É um coração que pulsa o tempo inteiro de madrugada. Tem o pessoal da faxina, o pessoal da manutenção, a troca de turnos dos vigias e todo o pessoal que trabalha lá e isso foi legal que assim do segundo dia em diante, até o primeiro segundo dia com madrugada a gente passava meio que despercebido ali. Depois do terceiro dia, terceira noite, eles já chegavam no turno deles, passavam lá no vão central queriam saber como é que estava, a quilometragem, se eu estava bem. Chegou uma noite que eles tinham que fazer um reparo lá, que iam ter que usar uma máquina barulhenta, aí eles perguntaram que horas que eu ia dormir pra antecipar o trabalho ou deixar pra depois pra não me incomodar na hora que eu fosse dormir. As meninas quando noturno delas antes de bater o cartão elas passavam lá para aplaudir, interagiram com tudo então foi muito legal essa parte da madrugada no shopping. Até mesmo a noite que eu precisei de um banho. Foi disponibilizado um banheiro para tomar um banho rápido e é assim que eles puderam ajudar o que eles puderam contribuir eles contribuíram. Do terceiro dia a coisa tomou uma proporção que eu ali em cima da esteira eles achavam que eu não tinha noção disso. Mas eu estava tão consciente que eu tinha a noção de tudo que estava acontecendo.

 

No último dia do desafio, o shopping estava lotado na torcida por ela. Crédito: Eduardo Ducks/Divulgação

 

Esportes de A à Z: Como foi sua relação com a sua equipe de apoio?

 

Débora: A minha equipe de apoio foi sensacional! desde os juízes, coordenadores que foram oitenta e quatro juízes, doze coordenadores, mais um cardiologista, um fisioterapeuta, uma nutricionista, uma enfermeira. Depois acabou mais um médico de coluna que foi o doutor Calixto. Tudo que tudo que podiam fazer foi feito. Meu treinador que estava lá comigo me orientando, me segurando. A minha equipe trabalhou muito a meu favor e a equipe do shopping trabalhou do outro lado e juntos a gente tivemos esse recorde sul-americano.

 

Esportes de A à Z:  Para o recorde mundial, você bateu na trave. O que acha que te faltou para conseguir a marca?

 

Débora: É realmente eu bati na trave. foram 800,61km que eu fiz e para bater o recorde da britânica que eu teria que fazer 833,05km. Faltou muito pouco, mas assim eu sei o que deu errado. Foi somente o monstro do sono é não consegui destruir ele. Já fiz muitas provas de longa distância e fiz um 1000 km no ano passado. A diferença entre os 1000km - Brasil e essa é que lá eu tinha de três a quatro horas de sono. Então eu terminava 100km que eu tinha que cumprir das 6 da manhã até meia noite pra fechar a distância, ia tomar um banho, dormir e acordava recuperada. Esse não, eu estava correndo 22 horas e quando eu ia descansar muitas vezes eu tinha 30 minutos porque eu já tinha usado o tempo para fazer uma massagem ou ir ao banheiro. Então acabava sobrando muito pouco tempo. E com trinta minutos, o corpo não consegue recuperar o suficiente para ficar sete dias correndo. A matemática não bate.  O único erro foi o sono me derrubar se eu não tivesse tido esse cansaço todo por não dormir, eu teria batido recorde muito antes muito antes e no sétimo dia eu estaria só caminhando para aumentar a distância para o recorde. Eu estava muito bem preparada para essa prova e foi um pequeno detalhe que o ano que vem vai ser ajustado.

 

Esportes de A à Z:  Então ano que vem, tem outra tentativa? o que acha que deve fazer de diferente?

 

Claro que sim! ano que vem tem outra tentativa sim! vou me organizar, vou treinar, vou estar focada como nessa tentativa. Ano que vem, se deus quiser, nessa mesma época tentarei novamente. Diferente, só quero me manter na esteira e não sentir o que tive dessa vez. De resto não vai mudar nada alimentação nem na hidratação. minha equipe que será a mesma cos meus apoios com certeza estarão comigo. Vou agora ficar uns 2 a 3 meses sem treinar para me recuperar, quando retorno aos treinos começando na rua e depois retomo os treinos na esteira em casa para conseguir trazer esse recorde para gente.